terça-feira, 13 de setembro de 2011
A pressa
A caminho do trabalho, muito apressado, com a cabeça cheia de pensamentos, parei o carro no sinal. Em alguns instantes, se aproximou uma pessoa magra, carregando um rodinho em uma das mãos e uma garrafinha de água mineral com a tampa furada na outra. Imediatamente, o fluxo de pensamentos começou a se direcionar para ele: "Ah, não!! Outro desses caras que vem molhar nosso carro sem a gente pedir!! Fiquei tenso, irritado, antevendo uma cena em que ele fingia que lavava meu vidro enquanto eu lhe dava dinheiro também fingindo que era por causa disso. Então ele se aproximou do meu carro, sorridente, e através de gestos com as mãos, me perguntou se eu queria que ele lavasse o vidro. Senti meu corpo relaxar: ele havia me perguntado!! Disse que sim. Ele começou, lentamente, a molhar o vidro da frente. Depois, ainda devagar, se dirigiu pra trás e molhou o vidro lá também. Iniciei então um processo de pensar que ele não tinha noção de tempo, que não ia conseguir terminar, que eu teria que ir embora com o vidro sujo. Ele começou, lentamente, a remover a água ensaboada do vidro de trás com seu pequeno rodo de mão, em pequenos movimentos de vai-e-vem. Continuava, eu, tenso. Com pena dele, imaginando que não conseguiria pagá-lo. Nisso, ele veio, ainda calmamente, lavar a parte da frente. Começou, usando o mesmo tipo de movimentação que efetuara na parte de trás, a limpar o vidro da frente. Comecei a me acalmar e tanbém a acreditar que ele conseguiria. Desacelerei. Ao terminar, ele se dirigiu a minha janela e pude, estarrecido, pagá-lo pela limpeza. Agradeci a ele por ter clareado minha visão naquele dia. Desejava, lá no fundo, que meu agradecimento pudesse ajudá-lo a manter-se nesse lugar onde se encontrava. Saí dali me sentindo mais leve, tranquilo e certo de ter aprendido uma valiosa lição. Toda aquela pressa e necessidade de fazer tudo velozmente estava na minha cabeça. Ali estava aquele homem, me provando que executar tarefas com calma, leveza e precisão também era possível. Me dirigi ao trabalho. Ao retornar, no final da tarde, passei em um local que ficava a uns mil metros de onde havia passado pela manhã e novamente parei no sinal fechado. Uma pessoa veio se aproximando, era o lusco-fusco e apenas conseguia ver uma sombra e a luz de um Sol já fraco, por trás. Me senti mais uma vez irritado, imaginando alguém atirando água no meu vidro sem que eu pedisse. Olhei mais de perto e pude perceber que era ele de novo. Meu corpo relaxou e percebi uma alegria e calma em mim ao reconhecê-lo. Era um amigo!! Passou ao lado do meu carro e nem se dirigiu a mim, conversando com o motorista de trás, perguntando-lhe algo.
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